sábado, 16 de maio de 2009

Decisões

Inspirou fundo e encheu os pulmões com o ar da tarde fresca. Ao cheiro da terra molhada juntava-se o paladar adocicado das tílias. Em poucos segundos, o mundo ficou mais leve.

Abriu os olhos e sorriu, olhando à sua volta enquanto fechava com firmeza a porta do Peugeot 404 que ainda conservava. Afastou-se com a gola do sobretudo cinza-escuro levantada ouvindo os seus próprios passos no chão húmido de terra batida.

Gostava de passear por ali e nunca se fartava. Apaziguavam-no o silêncio, as oliveiras, o canto dos pássaros e o sol coado pelos plátanos. As poucas casas existentes, mantendo os mesmos traços simples de há 80 anos, completavam o décor que o transportava a um tempo que nunca tinha vivido.

-- A vida é em frente! – exclamava para dentro.

As coisas não estavam bem. O mundo à sua volta fazia questão em estar virado do avesso. Eram precisas forças e ideias para continuar.

-- Forças e ideias... – repetia para si.

Força, coragem, e alento para se levantar a cada dia, um dia de cada vez. Ideias, entendimento, discernimento para poder compreender o seu próprio mundo.

Nisto cogitava enquanto caminhava ao acaso pelas estreitas veredas ladeadas de arbustos e árvores evitando as poças de água. Que assim não podia continuar!, ah!, isso não! Como segues então com a vida em frente se estás virado para um beco sem saída, pá? A mudança é necessária, a mudança é precisa, impõe-se uma quebra, um ponto de descontinuidade que derrube os muros desse beco. De mais a mais, isto não te implica só a ti. E se nada fizeres, então pior para todos, já que essa espiral não se fará rogada em continuar com o turbilhão.

Mudou de rumo virando à direita para uma rua qualquer. No meio dos seus pensamentos conseguiu ainda divertir-se com os olhares curiosos dos moradores que alongavam as tarefas para o mirar, pouco habituados a verem estranhos passeando por ali.

E agora? Chegar à fala já é complicado. Obter concordância é sumamente impossível, já sabes. Ainda não abriste a boca e já estás errado só porque sim, porque foste tu que o disseste. Será possível ainda inverter o mal já feito?

Deu consigo de volta ao largo onde deixara o carro. Sentia-se mais esclarecido agora. Porém, acompanhava-o no peito uma esmagadora sensação de vazio feita de perda e dor. Abraçou um grosso plátano existente no largo como se fosse o último amigo que lhe restasse. Por momentos sentiu-se fundir com a centenária árvore, encheu-se de uma estranha sensação de serenidade como se lhe corresse nas veias a seiva deste amigo de ocasião e esta transportasse consigo a solução para as suas ânsias.

Ajeitou a gola do sobretudo. Entrou no Peugeot e o motor rugiu ao rodar da chave. Sabia o que tinha que fazer, o que era necessário e acima de tudo correcto. E tremeu, pois tinha que separar-se do que mais amava.

2 comentários:

Daniel Silva (Lobinho) disse...

A meio do texto fica-se com uma sensação de que vai haver final feliz. nao houve.

nao sei se é real ou ficionado, ou híbrido, mas gostei muito de ler.

R. disse...

De facto o texto é um pouco melancólico. Embora o final não seja feliz à guisa dos contos-de-fadas, é feliz à sua maneira. :)