segunda-feira, 11 de maio de 2009

Visita

Era Inverno e já noite cerrada quando galguei a passos largos a rua que partia da estação de caminho-de-ferro. Tinha pressa em te ver e os minutos eram contados. A chuva miudinha, o frio de Janeiro e a rua íngreme estavam bem longe do meu pensamento.

Dei entrada no grande edifício subindo ao 3º piso por entre luzes tristes, materiais de construção e velhas mantas no soalho. Aquelas paredes acinzentadas e esmurradas por onde caminhavam fios e tubos já tinham visto muita coisa que prefeririam calar ainda que pudessem não o fazer. O lugar não era bonito, não, mas era bom e necessário que lá estivesses. Todos sabíamos disso.

À cautela, entrei no quarto, colocando o meu melhor sorriso. Gostaste de me ver, da forma como eu tinha a certeza que gostarias. Afinal, não nos conhecemos só de ontem. Desejei abraçar-te com força, inundar-te com o carinho que te dedico mas não o pude fazer. O teu estado débil num pós-operatório complicado não mo permitiu.

Uma enfermaria é sempre pouco acolhedora. Pairam no ar a doença e o medo, a conversa parece que nunca se afigura ligeira neste local. Assim como assim, por entre as dores que o analgésico não abafava, ias estoicamente mantendo a serenidade. Menos confiança tinha a pessoa à tua direita, acabada de internar e chorando copiosamente deitada na cama de ferro de cor creme.

Tinha que ser. Tive mesmo de puxar de todo o bom humor a que consegui deitar a mão. Pôr de pé a conversa mais alegre que me foi possível, exorcizar a tristeza que se apoderara do quarto e que estava ali a mais. Tagarelei, contei histórias do arco-da-velha, enrolei toda a gente à fala, fiz chistes e piadas, pintei a manta com o que estava ao meu alcance. Ainda hoje estou para saber se toda aquela presença de espírito era mesmo minha. Mas funcionou, é o que importa. Quando fui embora já não via lágrimas, só rostos mais apaziguados com a vida.

Ainda por lá ficaste uns dias. As tuas companheiras de enfermaria mudaram. Perguntaram muito por mim e cobriram a minha boa disposição de elogios, contaste-me depois. Pois nem sabes como nesse dia eu chorava cá dentro.

3 comentários:

Daniel Silva (Lobinho) disse...

OH... que lindo... deves ser lindissimo... belo ser humano. revi-me mas talvez nao tivesse as tuas forças... era uma amiga?

abraço forte

leva o premio sair das palavras na barra lateral direita do meu blogue. So por teres um blogue tao cheio de ti ja mereces.

Abraço especial,

Lobinho

P.S. - eu nao sei cozinhar :(

R. disse...

@Daniel: daqui a nada estou vermelho como um pimento! Já alguma vez viste um gato corado?

Estes textos que escrevo são uma maneira de exprimir algumas ideias. Há uma grande parte de realidade e umas pinceladas de ficção. Fica ao vosso cargo descobrir a fronteira.

Ainda não percebi como funcionam estas coisas dos prémios. Um dia destes decubro.

Daniel Silva (Lobinho) disse...

Ainda que seja ficção, vem de dentro de ti, get it? Logo sao sentimentos do Bright side of the force (Star wars) :)

Os permios sao mimos que deixamos uns aos outros. Copiamos da pagina de quem nos oferece e colocamos na nossa. E se quisermos ofereços tambem a outras pessoas.

Abraço e continua. Adorei descobrir-te :)