
Volto a este gatafunho dizendo algumas coisas que ficaram por dizer.
Este gatafunho
é o meu presépio de Natal. Como não tinha nenhum decidi-me a fazer um pela minha mão. Claro que está que, saindo destes neurónios felinos e retorcidos, a forma tinha que ser reinventada.
Perdoem-me os devotos mas, maldade minha, a figura em maior destaque neste presépio não é o Menino. Também não é Maria. É José.
José foi sempre olhado como figura de segundo plano. Afinal, Jesus é Deus feito homem e Maria a mulher eleita para mãe deste último. José, nesta teia de relações divinas, é um zero, um figurante, um acaso, uma nota de rodapé nos cânones, uma figura que desaparece dos Evangelhos sem deixar rasto.
Talvez não tenham notado, mas nesta imagem José segura o Menino. Pormenor? Talvez sim, eu diria definitivamente não. Claro que eu não conheço todas as representações feitas neste mundo, mas vasculhando na memória não encontro presépio onde isso aconteça. Jesus vulgarmente está nas palhinhas ou, no melhor dos casos, nos braços de Maria. Nunca com José, como se este fosse um inepto, ou segurar uma criança seja acto excluído para um homem, ou não tivesse direito a tal por inferior. Mas aqui segura, com ambas as mãos, com ternura, como quem tem nas mãos o mais precioso tesouro.
Maria dorme, e muito bem,
já antes vimos porquê. Mas não dorme de uma maneira qualquer. Dorme apoiada em José. Dorme com a cabeça encostada a José, com a mão pousada na perna dele. Repousa, confiada, sem traço de dúvida ou preocupação, de expressão serena, amparada por José.
Além do aspecto gráfico, José neste presépio é, literalmente, o fulcro, o esteio, o porto de abrigo de todos. Ironicamente o vulgar mortal é quem dá a guarida e segurança ao Divino e à Escolhida. E é o único acordado, com expressão bem preocupada que a responsabilidade não é pequena.
Esta figura, na verdade, tem um José igual a tantos outros Josés de uma família que poderia ser uma qualquer outra família.
Tem um José igual a tantos Josés que assumem o papel de pilar e abrigo dos seus como toda a gente espera que um José faça.
Tem um José igual a tantos Josés que cuida como se exige que um José cuide.
Tem um José igual a tantos Josés dedicados à sua Maria como é natural que um José se dedique.
E tem um José igual a tantos outros Josés que é isto tudo e com frequência desconsiderado, da vox populi às leis, enquanto elemento de uma família.
É que, apesar de muitas vezes esquecido, é verdade que no fundo do peito dos Josés também bate um coração. E os Josés também amam.