sábado, 9 de janeiro de 2010

Este gatafunho de novo




Volto a este gatafunho dizendo algumas coisas que ficaram por dizer.


Este gatafunho é o meu presépio de Natal. Como não tinha nenhum decidi-me a fazer um pela minha mão. Claro que está que, saindo destes neurónios felinos e retorcidos, a forma tinha que ser reinventada.


Perdoem-me os devotos mas, maldade minha, a figura em maior destaque neste presépio não é o Menino. Também não é Maria. É José.


José foi sempre olhado como figura de segundo plano. Afinal, Jesus é Deus feito homem e Maria a mulher eleita para mãe deste último. José, nesta teia de relações divinas, é um zero, um figurante, um acaso, uma nota de rodapé nos cânones, uma figura que desaparece dos Evangelhos sem deixar rasto.


Talvez não tenham notado, mas nesta imagem José segura o Menino. Pormenor? Talvez sim, eu diria definitivamente não. Claro que eu não conheço todas as representações feitas neste mundo, mas vasculhando na memória não encontro presépio onde isso aconteça. Jesus vulgarmente está nas palhinhas ou, no melhor dos casos, nos braços de Maria. Nunca com José, como se este fosse um inepto, ou segurar uma criança seja acto excluído para um homem, ou não tivesse direito a tal por inferior. Mas aqui segura, com ambas as mãos, com ternura, como quem tem nas mãos o mais precioso tesouro.


Maria dorme, e muito bem, já antes vimos porquê. Mas não dorme de uma maneira qualquer. Dorme apoiada em José. Dorme com a cabeça encostada a José, com a mão pousada na perna dele. Repousa, confiada, sem traço de dúvida ou preocupação, de expressão serena, amparada por José.


Além do aspecto gráfico, José neste presépio é, literalmente, o fulcro, o esteio, o porto de abrigo de todos. Ironicamente o vulgar mortal é quem dá a guarida e segurança ao Divino e à Escolhida. E é o único acordado, com expressão bem preocupada que a responsabilidade não é pequena.


Esta figura, na verdade, tem um José igual a tantos outros Josés de uma família que poderia ser uma qualquer outra família.


Tem um José igual a tantos Josés que assumem o papel de pilar e abrigo dos seus como toda a gente espera que um José faça.


Tem um José igual a tantos Josés que cuida como se exige que um José cuide.


Tem um José igual a tantos Josés dedicados à sua Maria como é natural que um José se dedique.


E tem um José igual a tantos outros Josés que é isto tudo e com frequência desconsiderado, da vox populi às leis, enquanto elemento de uma família.


É que, apesar de muitas vezes esquecido, é verdade que no fundo do peito dos Josés também bate um coração. E os Josés também amam.


13 comentários:

A Senhora disse...

E tem Josés que trocam portas de geladeiras, depois vai ver porque a porcaria do computador do filho não funciona. E lá está ainda... :))

Quando Davi nasceu, mas isso também aconteceu com Arthur, eu dizia que quando eles dissessem "mamãe" estariam olhando para André e não para mim. ;)

Sensível o seu texto e muito verdadeiro.

Beijinhos

R. disse...

@A Senhora:

Tem razão, nem todos se chamam José. Também há os que se chamam André e outros nomes mais. :)

R.

mfc disse...

Gostei muito desta tua reconstrução da ideia de presépio e de humanidade também.

R. disse...

@mfc:

Bem, isto está muito aquém de uma reconstrução de humanidade. De uma pequena parcela, concordo. E fico contente por teres gostado. :)

R.

Marina disse...

Quem dera que houvesse mais gente como o "teu" Jose!

R. disse...

@Marina:

Olha que devem haver muitos! Não dão é muito nas vistas... :)

R.

Dakota disse...

Sim sim, já havíamos reparado nesse pormenor ... de ser José a cuidar do menino ... Adorei essa adaptação aos 'tempos modernos' ...

R. disse...

@Dakota:

Fico contente que reparou. :)

E fica a pergunta: porque é que tem que ser nos "tempos modernos"? Porque é que não foi nos "tempos antigos também"?

;)

R.

TERESA SANTOS disse...

Olá Gatito,

Pensas que fugi? Nada disso! Só que tenho andado super ocupada (e triste!). Quero ler o teu post com calma, "saboreá-lo" mas ainda não é hoje.
Passo só para te desejar um bom Domingo.
Abraço, Gatito.

R. disse...

@TERESA SANTOS:

Um bom Domingo também e volta quando quiseres! :)

R.

TERESA SANTOS disse...

E pronto! Li, como queria, saboreando, o teu belo texto.
Por incrivel que te possa parecer apercebi-me desse "pequenino" pormenor desde o início. Só não o referi para vêr se alguém o fazia e, tal como esperava, ninguém o fez. E, por que é que fui sensivel a esse aspecto? Porque o subscrevo, integralmente.
Ainda que correndo o risco de as feministas me baterem, sempre defendi o papel do Homem, enquanto elemento/esteio da família.
Nem todos são assim, nem todos são "Josés", gritaram alguns/umas. Sim! Mas nem todos são insensiveis e irresponsáveis.
Sabes, Gatito? Ao contrário do se pensa, parece-me que a mulher, na sua ânsia de ser igual ao homem, perdeu terreno, perdeu humanidade. É indiscutivel que a mulher teve que percorrer um longo - e, por vezes, doloroso caminho -, para alcançar alguns direitos, só que agora (e não vamos generalizar) como que perdeu uma certa capacidade de amar, respeitar.
É do conhecimento da generalidade de muitos de nós, o papel, a influência da mulher sobre o homem, isto ao longo de séculos. Então? Por que seria? Será que isto não diz nada?!
É por tudo isto que, quando se fala na violência doméstica, nos problemas gravissimos porque passam muitas mulheres e que são inquestionáveis, pergunto sempre: então e os homens também não são maltratados, fisica a psicologicamente? Ah, dizem alguns, são mas em muito menor número! Tudo bem, mas nem a mulher é o anjo, nem o homem o demónio. Nada disto é a preto e branco.
Muitos Josés há, que são um mundo de ternura.
Quando li o teu post lembrei-me de uma cena a que assisti durante alguns meses. Perto de minha casa reside um jovem casal com quem me cruzava frequentemente. Num determinado dia, assisti a esta coisa espantosa: o marido despedia-se da mulher, na rua, beijando-a e, de seguida, com uma naturalidade espantosa, dava-lhe um beijo na barriga, acariciando-a. Passado o primeiro momento de surpresa, pensei que ela deveria estar grávida (ainda nem se notava) e ele estava a despedir-se do filho. Era isso mesmo! E esta dupla despedida durou até o bebé nascer. Que José será este? Que Homem é este que ama, desde logo, o seu filho daquela maneira? Que ama a sua mulher daquela maneira?
É como dizes, Gatito, os Josés também amam.

R. disse...

@TERESA SANTOS:

Isto tem tamanho que concorre com o "post"! Eheh! :)

Permite-me só que esclareça uma coisa (não necessariamente a ti, mas a quem ler no geral):

Este "post" não pretende, de forma alguma, rebaixar ou inferiorizar as mulheres, nem ser mais uma batalha entre sexos. Reclama, apenas, o reconhecimento do papel de uma das partes.

R.

TERESA SANTOS disse...

Já tinha entendido, Gatito, que essa era a tua ideia.
Em relação ao tamanho do comentário tens toda a razão. Leste-o até ao fim? :)))
Para que conste, informo-te que não escrevi, nem metade do que me apetecia.
Sou um perigo!...
Abraço.