segunda-feira, 20 de julho de 2009

Citações

Não é muito meu costume aqui pelo Castelo coleccionar citações daqui e dali. Não enjeitando os saberes e ciências dos demais, tenho tentado criar sem projecto nem plano um espaço para os múltiplos eus que existem longe das vistas do dia-a-dia, um perímetro de expansão que vá permitindo a libertação de alguns contornos um tanto amarrados.

Ironia ou pré-disposição não pensada de me contrariar, ao ler hoje as actualizações de dois dos blogs onde roço os bigodes amiúde levei com duas pauladas no lombo (sem relação com Arranhadelas IV). No lombo e estranhamente em curto-circuito directo ao meu âmago.

Suprema ironia: as duas mensagens que me deitaram ao tapete qual Rocky em versão felina e figurada são, elas mesmas, inspiradas por outras leituras devidamente por lá citadas.



Ora deixa cá ver, resgatada da toca do Ouriço:

"[...] no que se sente quando revelamos este mundo a alguém que nos é próximo e sentimos que do outro lado sobra indiferença. [...] É como oferecer um presente que é deixado num canto, abandonado. Quando o presente somos nós, este 'abandono' terá de querer dizer alguma coisa, não?"

Lá de oferecer a alma embrulhada em blogs (ou vice-versa, quer-me parecer que também serve) não tenho grande experiência. Contudo, esse calo que me mingua em bits e bytes virtuais sobeja-me em anos de vida debaixo de telhas bem reais (quer as telhas, quer os anos).

Presente eternamente por desembrulhar, um livro que nunca foi lido. À tentativa de o ir lendo em voz alta, algumas páginas se mais não pudesse ser, fui tendo como resposta um cortar do pio, um fechar da capa de forma nem tanto estrondosa mas inegavelmente seca. "--Tu nunca me falas de ti" - ouvia eu noutras ocasiões. Nunca imaginou quão acres eram estas palavras, estou certo.

Pessoas há que, além de serem incapazes de dar e de se dar, são igualmente incapazes de receber. Merecerão os presentes? Eu acreditei que sim até à última centelha de energia.


E, na sequência, lido Lazer & Labor:

(...) Já fiz coisas que não quis por não saber dizer não. Já fiz coisas que quis e das quais me arrependo. Já deixei de fazer o que devia por ter medo de magoar e já fiz o que não devia apenas para agradar.(...)” (CHALITA, Gabriel, "Cartas entre Amigos: sobre medos contemporâneos", Ediouro, Rio de Janeiro, 2009).

Sim, muitas e muitas vezes, na vã tentativa que alguém se desse conta que, afinal, aquele embrulho pardo, sem grandes laçarotes ou decorações em papel de fantasia, até merecia um segundo olhar.

11 comentários:

A Senhora disse...

Hummm... gatinho, dessa vez a sagitariana aqui pensa do seu avesso. ;)

beijocas

R. disse...

@A Denhora:

Óptimo! Fico preocupado quando as pessoas concordam demasiado comigo. :)

Mas a mensagem diz tanta coisa (e algumas delas são factos, não opiniões) que fiquei sem saber qual a parte com que a sagitariana aí não concorda. :\

Bjs,

R.

A Senhora disse...

É que eu sou daquelas que gosta, sem perguntar ao outro se ele também gosta de mim. Para falar a verdade, gosto do gostar. Amo o amar. A reciprocidade é uma delícia! Mas não é uma condição para eu continuar amando/gostando. Se querem me conhecer, ótimo. Se não, pouco importa - a pessoa continua sendo interessante para mim. Claro que não fico pegando no pé... :)
Mas, como diz um certo leonino, se enfurecida eu atropelo. :)

beijinhos

mf disse...

"Pessoas há que, além de serem incapazes de dar e de se dar, são igualmente incapazes de receber. Merecerão os presentes? Eu acreditei que sim até à última centelha de energia."

Pois. Mas, como sabes, não merecem. Por isso, mais vale guardá-los para outro alguém. E com papel colorido e laçarotes. Não sei onde raio viste o papel pardo.

Dá tempo. Há-de aparecer. Provavelmente quando menos esperares. Tipo pássaro que cai mesmo à frente do gato. Eh eh

R. disse...

@A Senhora:

Afinal não discorda em coisa nenhuma! Esse seu último comentário poderia ter sido eu a escrevê-lo.

Mas o que escreveu aplica-se às pessoas num sentido lato e abrangente, e não _À_ pessoa com quem se divide telhado, mesa e cama, que lhe jura tudo mas da boca para fora, e a quem tudo oferecemos sem ter ao menos a delicadeza de desembrulhar.

R.

R. disse...

@mf:

Papel pardo, sim. O gato low profile no meio da multidão. Sem a exuberância de um Persa, nem a ferocidade de um Siamês, nem qualquer outra característica com que se pretenda destacar pelo superficial.

A côr e a fantasia, essa, é reservada para quem tentou ver para além da primeira camada.

Quanto ao tempo, é como diz a música do Gilberto: "Sem correr, bem devagar..." :)

A Senhora disse...

O que eu não gosto, e me sinto incomodada, é justamente essa parte do presente embrulhado que tem que ser desembrulhado.
Já ouvi essa frase e não gosto disso. Não percebo o sentido. É difícil entender isso. Eu tenho os meus espaços secretos que gosto que sejam respeitados e sempre imagino que o outro também tenha o seu. O calar-se, para mim, é uma forma de delimitar o espaço que eu posso ocupar. Nunca arrancaria do íntimo de alguém coisas à saca-rolhas, mesmo que ele espere isso - é quase dar a mesma liberdade para ele fazer a mesma coisa comigo, coisa qeu eu não quero.

Credo! Sessão terapia encerrada! :)

beijinhos

R. disse...

@A Senhora:

A mensagem não está a partir bem daqui, com certeza.

Não se trata de arrancar a saca-rolhas, nem de nos virem buscar coisas ao nosso silêncio. Bem pelo contrário!

Trata-se de entregar na mão, de dar de peito aberto, de mostrar com vontade e nem assim foi alvo de dois minutos de reflexão.

Mas não é preciso sentir incómodo nem fazer disto sessão de terapia. A conversa pode durar o tempo que for necessário. :)

R.

A Senhora disse...

Ceeeeeerto.
Então, resta das as costas, não é? ;)

Quanto a conversar, adoro, mas pelo msn... sou quase tímida. :))

beijocas

mf disse...

Andei a reler, dei com este post. Fiquei a olhar para os teus e meus comentários. Sorri ao ler 'Dá tempo. Há-de aparecer. Provavelmente quando menos esperares. Tipo pássaro que cai mesmo à frente do gato.' Que ironia, meu Amor... :)

R. disse...

@mf:

Um passarão. ;)

R.