quinta-feira, 16 de julho de 2009

Nos trilhos


Senti o controlo a fugir. Por mais que me aplicasse, os vagões insistiam em atropelar a locomotiva numa tentativa descoordenada e vaga de tomar uma dianteira que não sabem dirigir. O descarrilamento parecia iminente, inexorável, e não sabia sequer quem era o padroeiro dos ferroviários para lhe encomendar as preces. Os dias tomavam um rumo que desafiava qualquer agulha ou baliza num clanc-clanc sacudido entre carris e, na agitação, mantinha uma tola esperança por um Deus Ex Machina que, como estamos acostumados, nunca aparece quando é preciso. Nem ao menos uma miserável dresina para desenrascar! Do óbvio, que nunca é óbvio quando do óbvio precisamos, acabei por me lembrar: aplicar os freios. Juro que ainda senti as rodas exteriores levantarem do carril numa curva mais apertada. A composição lá perdeu velocidade, a pouco e pouco, devorando as travessas da linha a um ritmo cada vez mais brando.

Cá estou de novo. Rolando mais devagar, desta vez, apreciando o céu azul e a paisagem em redor, gozando da vida o que a vida oferece, celebrando os bons momentos e as gares passadas. De volta aos trilhos.

6 comentários:

A Senhora disse...

Já senti essa emoção nada agradável. Sair dela é bom, saindo devagar, tendo certeza dos nossos sentimentos, nosso equilíbrio. Depois... depois eu digo... :)

beijos, querido

R. disse...

Adaptando um pouco o aforismo, depois da tormenta damos o devido valor à bonança. :)

R.

Daniel Silva (Lobinho) disse...

Gosto muito da imagem. Mas se a imagem é belissima (para mim, pelo menos) o texto nao o é menos, pela capacidade quase invulgar de transpor metaforicamente uma vida (ou o que se passa actualmente dela).

E, sim, apreciar, determo-nos na paisagem... do que um ébrio TGV que no-la corta em frames desfocados...

aquele abraço

mf disse...

E assim se aprende a travar. ;)

R. disse...

@Daniel:

Tens razão, meu amigo. Mais do que chegar muito depressa ao destino temos a obrigação de gozar o tempo.

R.

R. disse...

@mf:

É, mas é estranho. Há uma parte de mim que exige o travão, outra que estranha a dança lenta. Ando a porfiar para que as comadres se entendam. :)

R.